terça-feira, 5 de fevereiro de 2008

Há dias em que lembro as tuas mãos a apertarem-me de encontro ao teu corpo no calor da tua segurança
sentia-me tão cansada
aconchegavas sem saberes as lágrimas que vertia por dentro, não percebo de onde vêm porque às vezes um sorriso, talvez das despedidas, sem dizer adeus com palavras,
- Adeus, até breve
somente nos olhos uma saudade futura
- até breve
até quando?
e a tua mão que me puxava cheia de certezas, a ignorar a minha mãe a emudecer um grito
- Adeus, até breve
que o estômago lhe enviava e ela lhe devolvia porque a minha mãe a engolir um grito ao ouvir aquela besta de ferro a apitar e a anunciar
- Adeus
eu um nó no estômago a calar-me, a tua mão a puxar-me para dentro do estômago da besta que ia engolindo outras pessoas, sem perceberes as lágrimas que não se vêem, tal como nunca percebeste quando eu abraçada aos meus joelhos, a dúvida de alguma vez tornar a vê-la
A pouco e pouco a terra a mover-se debaixo dos nossos pés sem que caminhássemos em direcção alguma, apenas o desconhecido como destino e ao fim de uns dias os dias todos iguais, as mesmas palavras os mesmos beijos, as tuas mãos a afogarem-me contra o teu corpo
os apitos da besta de ferro agora uma música aborrecida sempre com o mesmo tempo o mesmo compasso as mesmas notas repetidas, o estômago agora sem nós nem borboletas, vazio a protestar
- tenho fome
e eu vazia abraçada aos joelhos por não ter ninguém para abraçar a habituar-me às lágrimas que nunca percebeste e nunca aconchegaste, foram tão poucos os dias em que as tuas mãos me apertaram seguras e o comboio rasgava a paisagem sem interrupções, à janela a minha mãe a dizer coisas em silêncio, se calhar,
- Adeus até breve
às quais eu respondia com olhos brilhantes de saudade, a minha aldeia a encolher e depois a janela desfocada, a lembrar coisas que sinceramente preferia esquecer a respirar sozinha pela primeira vez enquanto embaciava o vidro e aconchegava no teu colo a minha mãe agora sozinha, o meu pai morto à que anos e os meus irmãos alguns que eu nem conheci na França à procura de melhor sorte a acenar em silêncio,
- Eu prometo que lhe escrevo mãezinha
assim como prometi a mim mesma que te escreveria e nunca escrevi, e eu a ver a aldeia encolher à medida que também a minha mãe encolhia e a tua mão me puxava
- Vou fazer de ti uma mulher feliz
a acreditar sem prometer nada de volta e tu a cobrares-me tal como ela
- Poque não dizes que me amas?
e eu a acreditar
- amo-te
sentia-me tão cansada
e a adormecer logo de seguida embalada pelo sono da viagem com a tua voz de fundo,
- vou fazer de ti uma mulher feliz
eu a querer acreditar mas indiferente à espera desesperada por uma estação onde pudesse
- vou comprar cigarros
e nunca mais tu ou a minha mãe e somente eu com as vossas lágrimas e à espera que outra besta qualquer me engolisse e me guardasse nas suas entranhas.
Há dias em que lembro aquele comboio em que fizémos uma viagem tão curta e desejo ter seguido viagem, mas sentia-me tão cansada.


Contextualização#06 ver www.luiselmau.blogspot.com

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

Leituras (4)

"Peço desculpa a quem de direito por demorar dúzias de páginas a chegar ao final mas com tanta lembrança a ferver a cabeça escapa, oiço-a remexer episódios antigos a mudar pessoas e coisas de sítio e a repetir misérias que julgava esquecidas e afinal permanecem, o meu padrasto, a minha mãe, o doutor Sabino enquanto os tubos de borracha do estetoscópio sem repouso no tampo e continuarão sem repouso depois de me ir embora"

..."só Deus e eu neste limbo e qual de nós o mais incapaz de milagres, há anos que não gasto cera com Ele que nunca a gastou comigo"


in «O meu nome é Legião» António Lobo Antunes

quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

The Raveonettes - Dead Sound

Dia 20 de Fevereiro no Santiago Alquimista. Eu já tenho meu Bilhete!

quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

Hoje era dia de rosas para ti. Comprei-as encarnadas da cor do sangue quando escorre e carnudas, sei que gostas, a exalar um perfume que só podia ser teu, era teu. Comprei-as à dez anos. Como à dez anos tu a mim, de mãos dadas, me ofereceste rosas que ainda hoje vivem, não vivas, num jarro alojado no cimo de um móvel em casa dos meus pais. Olham-me dos seus corpos mortos como se ainda respirassem, o encarnado agora cor de carne morta, a insistirem exalar o teu cheiro. Hoje era dia de mãos dadas num passeio de autocarro até Lisboa. Era dia de beijos e abraços despreocupados com o fim do tempo, porque naquela altura o tempo não acabava e como ele nós também não.
Hoje é dia de um sms distante, não um telefonema, para te lembrares que não me esqueço de ti.
Assino-o com um beijo, ou antes beijinhos, e muitos anos de vida.

terça-feira, 22 de janeiro de 2008

Arcade Fire - Neon Bible (Elevator Version)

Sei que isto não será novidade para muita gente, mas gosto tanto que me apeteceu tê-lo aqui. enjoy this bible!

domingo, 20 de janeiro de 2008

Contigo queria

Contigo queria
a manhã a tarde e a noite
as ruas da cidade
os dias de sol e de chuva
a dança ondulante das ervas do campo
e as horas silenciosas da praia
(não silêncio, as ondas constantes)
Contigo queria
sorrisos e risos e lágrimas
o gosto da carne dos teus lábios
a demora de um abraço
e os dedos entrelaçados além das rugas que nos cobririão, se tu
Contigo queria
adormecer e acordar
(não silêncio, a chuva lá fora incessante ou as ondas)
viajar sem destino sem paragens
contigo queria o mundo.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2008

Scanners - Lowlife

Esta é uma música que me foi mostrada à umas semanas, mas tenho-a ouvido com tanta insistência que hoje decidi colocá-la aqui. Os Scanners são londrinos e lançaram este single em 2006 tendo no Verão desse mesmo ano editado o álbum de estreia Violence is Golden, do qual também existe o video da música (muito boa por sinal) Raw. Ainda não consegui ouvir o disco todo, apenas mais duas música para além das mencionadas, mas acho que o melhor é não esperar pela edição nacional. Apreciem, eles são bons.

Hot Chip - Ready For The Floor

Ainda só vamos nos primeiros quinze dias de 2008 e já há um grande disco nos escaparates. Made in the dark, é o quarto disco dos hot chip, e este ready for the floor é o single de apresentação que se faz acompanhar de um video muito bom.

terça-feira, 15 de janeiro de 2008

Leituras (3)

..."não fiz senão acumular passados sobre passados atrás das costas, multiplicá-los, aos passados, e se uma vida me parecia já demasiado cheia e ramificada e enredada para andar sempre com ela, imagine-se muitas vidas, cada uma com o seu passado e com os passados das outras vidas que continuam a ligar-se uns aos outros."

Italo Calvino in «Se numa noite de inverno um viajante»

Jorge Palma - Encosta-te a Mim

e porque não uma homenagem à música portuguesa? e quem melhor que o Jorge Palma? este é um homem, um músico, um escritor de canções, que admiro. à tua grande Jorge!